quinta-feira, 28 de agosto de 2008
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
O LIVRO DE CONTOS AOS POUCOS

BIOFILIA
Contos definitivos
Memória não mata fome
Ilusão não é. Tudo que eu escrevo é premonição, inválida, claro, senão eu não seria mortal. Como eu gostaria de não ser mortal. Viveria 386 anos numa boa. Acharia pouco para um romance. Voilá.
Contos definitivos
Memória não mata fome
Ilusão não é. Tudo que eu escrevo é premonição, inválida, claro, senão eu não seria mortal. Como eu gostaria de não ser mortal. Viveria 386 anos numa boa. Acharia pouco para um romance. Voilá.
ERA UMA PUTA SEGUNDA-FEIRA, 29 DE OUTUBRO DE 2007. NOSSO CARACTERE SEMPRE COADJUVANTE EM TUDO TORNOU-SE UM ATOR DE GRANDES FALAS E ALGUMA REPRESENTATIVIDADE NESTA PORRA DE CONTO QUE EU COMECEI A ESCREVER FAZ PELO MENOS UNS 10 ANOS, ISSO AQUI É UMA DAQUELAS TÍPICAS COISAS QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE TERMINAR, UMA FAXINA NECESSÁRIA, UMA HISTÓRIA DE AMOR QUE NÃO VALE A PENA, UMA HISTÓRIA DE AMOR QUE VOCÊ SEMPRE PENSA QUE NÃO TEM FUTURO E QUANDO SE DÁ CONTA ESTA HISTÓRIA SÓ TEM PASSADO, PASSADO, PASSADO. VAMOS VER SE ESSA REFORMA NESTE MALDITO CONTO AQUI EM AVIGNON FUNCIONA. TOMEI UMA TAÇA DE UM ROSÉ AGORA, UM BOM ROSÉ, GANHOU MEDALHA DE UMA CERTA CONGREGAÇÃO E TUDO, DEPOIS DE ALGUNS GOLES COMECEI A ME COÇAR, NA BARRIGA E NOS BRAÇOS, ISSO SERÁ UM SINAL QUE MEU FÍGADO ESTÁ CANSADO DE ABSORVER RÓTULOS PREMIADOS OU É SIMPLESMENTE MAIS UMA TPM VIGOROSA... QUEM SABERÁ... A MINHA CONCENTRAÇÃO NÃO QUER SABER DE REFORMAS AGORA. ELA QUER SAIR POR AÍ, CAMBALEANTE E SONÍFERA POR MAIS UMA CIDADE ANTIGA E BONITA. TCHAU REFORMA. TCHAU TRABALHO. TCHAU PERSISTÊNCIA NOS ERROS. EU VOLTO. AMANHÃ CEDO COM UM CAFÉ, ANIMADA PELOS MEUS SONHOS OU ERÓTICOS OU SÓRDIRISOS OU TRÁGICOS. QUEM SABERÁ....ANDRÉS ESTAVA FODIDO. SUAS GENGIVAS TAMBÉM ESTAVAM FODIDAS. ESCURAS E COAGULADAS DE UM SANGUE MEIO MORTO MEIO VELHO MEIO NOVO MEIO DOCE. OS DENTES TORTOS ESTAVAM SE AFASTANDO CADA DIA MAIS.
NÃO SABIA SE ERA ESCORBUTO OU AFLIÇÃO DOS PESADELOS REGULARES, MORDIA OS LÁBIOS E ACORDAVA SEMPRE COM A BOCA SANGRANDO, MEDO DE VOLTAR A DORMIR E COMEÇAR A DETERIORAR. FUMAVA, COMIA, OUVIA MÚSICA, E FICAVA CONCENTRADO PARA SENTIR MELHOR A BAMBEZA DOS DENTES E O CHEIRO DE AÇOUGUE DE SUA BOCA.
DEPOIS DE TRÊS DIAS NÃO DEU MAIS PARA AGÜENTAR OS OLHOS LACRIMEJANDO. DESMAIOU INSOSSO. VEIO O SONHO. ESTAVA ARRANCANDO PEDAÇOS DE COISAS DE SUA CASA, AS LASCAS DO PORTAL POR ONDE ELA VINHA SEMPRE, ARRANCANDO A ROUPA, CHEGANDO DA CIDADE, DO METRÔ, DA INFINITA SUBIDA DA RUA CONSOLAÇÃO, COM CHEIRO DE FUMAÇA DE ÔNIBUS, SALGADA DE SUOR, E UM ESTRANHO GOSTO DE PETRÓLEO. JUNTAVA OS PEDAÇOS DO ARMÁRIO ONDE TUDO, VEZ POR OUTRA, PARECIA ETERNO, ALGUNS PREGOS ONDE ELE TINHA FINCADO TUDO GRANDE TUDO TORTO TUDO ERRADO, E UM GRANDE ROBÔ TINHA VIDA, COM SEU ROSTO REDONDO, COMO O DELA, PEQUENA DEMAIS E SEM ELE. MESMO COM TUDO PONTIAGUDO E DISCREPANTE, O NARIZ FOI CONSTRUÍDO POR PEQUENOS PARAFUSOS ACHADOS POR AQUELES CANTOS, ONDE ELA DEIXOU TUDO TAMBÉM MUITO ERRADO, COM DESCONFIANÇA E SEM O RITMO DE UMA DESCULPA, DEPOIS DE TUDO ENTENDIDO ESQUISITO, LÁ, TUDO JOGADO, AFINAL NÃO TINHA NENHUMA PERSUASÃO OU VONTADE OU PRECISÃO DE NA PRESENÇA DELE, OU DE QUALQUER OUTRO BICHO VIVO CONTINUAR NADA, NEM QUE FOSSE COLAR UM PARAFUSO NA HIPÓFISE DE SEU NOVO PLANO METÁLICO DE ILUSÃO.
E ELE VIA, MESMO SEM ELA SEM OS OUTROS SEM O RESTO, ELE VIA, UMA OUTRA E MAIS NOVA E FORTE FANTASIA, SUAS ORELHAS ERAM TOMADAS VELHAS, UM GRANDE FIO SERVIA DE ELO ENTRE O CORAÇÃO FEITO COM GARRAFAS PLÁSTICAS LIGADAS A CABEÇA POR UM FEICHE DE LUZ , O CÉREBRO ERA APENAS UM VELHO TACHO DE COBRE VAZIO E OXIDADO.
ERA UM BICHO MEIO MONSTRUOSO NA FIGURA, MAS PARECIA INOFENSÍVEL TALVEZ POR NÃO INSPIRAR QUALQUER POSSIBILIDADE DE VEEMÊNCIA, EM FUNÇÃO DA POUCA MALEABILIDADE DE SEUS MEMBROS. OS DEDOS DAS MÃOS FORAM FABRICADOS COM AS PONTAS DOS GARFOS QUE ELA ENFIAVA EM SUA BOCA DEPOIS DE GUISAR, COM CAPRICHO, SEUS LEGUMES CAROS, SEUS TEMPEROS PERFUMADOS, E DEPOIS QUE ELE COMIA ELA PEDIA: SOPRA, GOSTAVA DO HÁLITO DELE COM O TEMPERO DELA, SE O HÁLITO ESTÁ ASSIM, IMAGINE O ESPERMA, DIZIA TUDO BAIXO, ENTRE DENTES E LÍNGUAS E CALCINHAS PEQUENAS E ÓLEOS E FLUXO DE SALIVAS E UM PERFUME DE AXILAS SUGADAS . TUDO DO ROBÔ TINHA UM TANTO DELA OU DELE MISTURADO, TUDO REVIRADO E EM CADA INSTRUMENTO MORAVA UMA GRANDE SAUDADE, UM GRANDE BLEFE, UM GRANDE ATALHO.
UM DOS PÉS ERAM LATAS DE ÓLEO QUE PROMOVIAM UM BARULHO DE CORRENTES SENDO ARRASTADAS POR HORIZONTES METÁLICOS, OU ELA ENGATINHANDO NUA COM SEUS INDECIFRÁVEIS PENDURICALHOS. OS DEDOS FORAM CONFECCIONADOS COM CONCHAS, GRANDES ESCUMADEIRAS E SACA-ROLHAS EM ORDEM DECRESCENTE DO PONTO DE VISTA DO MEIO, COMO REALMENTE SE POSICIONAM OS DEDOS, O MINDINHO ESQUERDO ERA UM ABRIDOR DE LATAS CARCOMIDO DE FERRUGEM, DE TANTO SER ESQUECIDO EM CIMA DA MESA MOLHADA, DIAS, NOITES E ENTREGAS.
A BASE DO OUTRO PÉ ERA FEITA DE UM MONTE DE GARRAFAS LINDAS DE VINHO BARATO, SORVIDO ENTRE SEGREDOS E CONFISSÕES, PROMOVIAM O RUÍDO DE UM VELHO CORCUNDA SUGANDO SEUS RESTOS NUM DEPÓSITO DE LIXO DO JARDIM EUROPA OU QUEM SABE O RUÍDO DELA, ENGATINHANDO DE NOVO, OFEGANTE, PROCURANDO UMA CAMISINHA.
OS DEDOS FORAM FEITOS DE UM VELHO JOGO DE CHAVES DE FENDA ALTERNADAS COM UM MARTELO E UM ALICATE. NA REALIDADE SÓ PARECIAM DEDOS PORQUE ESTAVAM NAS EXTREMIDADES DA CRIATURA. TUDO PODERIA SER APENAS UMA VITRINE DE MICROCHIPS RESGATADOS DE UM DEPÓSITO MUITO ESCURO, MUITO GASTO, NÃO FOSSE O FATO DAQUILO SE MOVER E PARECER AINDA, COM TODO ESSE ARSENAL, FACTÍVEL, INDEFESO E DESBOTADO.
ACORDOU LESO E EXAUSTO E POBRE E TRISTE E SÓ E FODIDO E CALADO E CARENTE E MUITO MAIS POBRE DO QUE O ESMIUÇADO, DE SEU LIXO POUCO, PORQUE AGORA TUDO QUE ERA DELE, ERA A TROCA, DE UMA VIDA COMPLETA E ERRADA, E ERA FOGO E ERA POUCO E TINHA UMA MULHER, QUE AMAVA, INTACTA. DE ALGUM LUGAR ELA VIRIA, ENCIUMADA OU FORTE OU FRACA OU TRISTE OU AMOLADA.
UMA SIMPLES AQUISIÇÃO DE MEMÓRIA INGRATA. ERA TUDO TÃO NÍTIDO, COMO UM MERGULHO, UM BEIJO, UM SUSTO.
FOI AMOLECENDO, FECHOU OS OLHOS E SAIU PARA COMPRAR JORNAL. AO CHEGAR EM CASA, DEU DE CARA COM A EMPREGADA DE MUITOS ANOS, CONHECIDA, MELHORADA, ESPIADA PELAS FRESTAS GOZANDO QUIETA E SEM MAIS NENHUMA ILUSÃO PELO TOQUE DE SEUS DEDOS COM CHEIRO DE DETERGENTE E VASO SANITÁRIO. ELA O OLHOU E DISSE: ESPERO QUE ESSE JORNAL VOCÊ LEIA, ENQUANTO UM MONTE DE FOLHAS DO MESMO JORNAL ESTAVAM ESPALHADAS PELO CHÃO, SEM UTILIDADE, SEM UM CÃO PARA DEITAR POR CIMA, SEM UM AÇOUGUEIRO PARA EMBRULHAR, QUEM SABE ALI, O PULMÃO DE UM BOM BOI CASTRADO BEM CEDO, ELA RIU, E ELE, NUNCA RIA, MAS FOI BREVE, E SE CERTIFICOU, SEM NENHUMA ESPÉCIE DE RANCOR OU SOMBRA DE ALEGRIA, DE QUE REALMENTE NÃO LIA.
AGORA INTIMIDADO POR TANTO PAPEL INÚTIL, ABRIU O JORNAL NOS QUADRINHOS, LEU A HISTÓRIA DE UMA MULHER OPULENTA E MUITO PEITUDA, DE CABELO CHANEL PRETO E UNHAS ROÍDAS, NOS DOIS PRIMEIROS QUADROS A FIGURA DELA NÃO APARECIA, APENAS UM TEXTO RESUMIA ESTA IMAGEM. LEMBROU-SE DAQUELA MULHER, ERA APENAS UMA VELHA AMIGA, ESQUECIDA EM SUA MEMÓRIA COMO TANTAS OUTRAS PESSOAS NÍTIDAS E IMPORTANTES, QUE AOS POUCOS, COM A AJUDA INERENTE DO TEMPO, FORAM PERDENDO TERRITÓRIO EM SUA VIDA. ASSUSTOU-SE E PENSOU EM CHECAR O NOME DO AUTOR DA HISTORINHA, MAS ESQUECEU DESTA IMPORTÂNCIA E SAIU PRA COMPRAR CIGARROS. A CABINE DA PADARIA ERA PRECÁRIA E AMARELADA, A ATENDENTE PARECIA UMA PROSTITUTA QUE ENCONTROU CERTA VEZ NUM AEROPORTO INDO PARA ZURIQUE. AGORA ELA JÁ NÃO TINHA A SOMBRA AZUL SOBRE OS OLHOS CAFUZOS NEM O BATOM PINK, ESTAVA SEM MAQUIAGEM E VESTIA APENAS UM JALECO BEGE. SEU ROSTO ESTAVA PÁLIDO, VIA GRANDES E SECAS REMELAS EM SEUS OLHOS E NOS CANTOS DA BOCA UMA ESPUMINHA BRANCA ENDURECIDA. NÃO HÁ NADA MAIS TRISTE DO QUE UMA PUTA SEM MAQUIAGEM E AINDA POR CIMA DE JALECO, E ALÉM DE TUDO, BEGE, MAS A ESPUMINHA PODIA SER SIM, ANOS DE ESPERMA MUMIFICADOS.
ANDRÉS PEDIU UM TAL CIGARRO, NÃO TEM, ELE OLHOU EMBEVECIDO AQUELA QUANTIDADE DE DOCES, CIGARROS, CAIXINHAS COLORIDAS, LEU TODAS AS MARCAS DE TUDO E DISSE : UM QUALQUER COISA. A MULHER VIROU-SE PARA PEGAR O CIGARRO E RESOLVEU TENTAR SINTONIZAR O VELHO RÁDIO PENDIDO NO ALTO DA ESTANTE. ANDRÉS EXAMINAVA UMA CIGARREIRA ANTIGA COM DESENHOS DE FLORES E GAROTOS BOCHECHUDOS E PENSAVA QUE SUA MULHER ACHARIA BONITO, A PUTA QUE IA PARA ZURIQUE ESTAVA NAS PONTAS DOS PÉS E AS BATATAS DE SUA PERNA ERAM BRANCAS E DURAS, ANDRÉS TAMBÉM ACHOU A MULHER PARECIDA COM A AMANTE DE UM CHURRASQUEIRO DE UMA CIDADE DO INTERIOR.
ELA CONTINUAVA DE COSTAS E OS BRAÇOS DE ANDRÉS AGORA PENDIAM MURCHOS DE CANSAÇO, A CHIADEIRA DO RÁDIO NÃO INCOMODAVA, OLHAVA UNS CARAMELOS MUITO PERTO DE SUAS MÃOS, JÁ QUE A MULHER NÃO SE VIRAVA, CATOU A CIGARREIRA AS BALAS UM OUTRO CIGARRO UNS PUROS CHICLETES FÓSFOROS E ANDOU LENTAMENTE PELA RUA SEM ASFALTO, DE REPENTE ACORDOU COM MUITA SEDE, FOI ATÉ A COZINHA.
E PENSOU, NÃO QUERO COMER HOJE, ENTÃO BEBEU TRÊS COPOS DE ÁGUA NATURAL SENTINDO SEU GOSTO MORNO MIXADO AO SANGUE E À DOR NOS DENTES, O SABOR DE ANTEONTEM NA LÍNGUA ÁSPERA INCOMODAVA, VOLTOU PARA O COLCHÃO COM UMA SAUDADE INCRÍVEL DE SUA MULHER DEITADA VIRADA PARA O CANTO, ENTÃO DORMIU E PASSOU A MÃO ENTRE SUAS PERNAS E BEIJOU SUA BOCA COM A SENSAÇÃO DE TER ESTADO LONGE DELA POR MUITO TEMPO, ERA ESTRANHO ESTAR TÃO CANSADO DE PENSAR EM TODOS OS DETALHES, BEIJOU SEU PESCOÇO SUAS TÊMPORAS E AGARROU-SE EM SUAS COSTAS PARA DESCANSAR, FECHOU OS OLHOS, ABRIU OS CARAMELOS E AO COLOCAR UM NA BOCA SENTIU UM ESCROTO GOSTO DE SABÃO BARATO. PENSOU EM BOLHAS DENTRO DO ESTÔMAGO, CUSPIU OS RESQUÍCIOS, MAS NÃO ADIANTOU, ACORDOU COM AQUELE GOSTO VENCIDO DE TERNURA AMARGA, NÃO DE BRUMA SAL MULATAS QUIOSQUES E MARESIA, MAS UMA NERVURA PLÁSTICA, DE COPOS DESCARTÁVEIS, MOCHILAS PESADAS, CIGARROS MOLHADOS, RUÍDO DE CORTAR ISOPOR, ESPERA NO METRÔ E SAUDADE. CANSAÇO. SINTÉTICO. COM CHEIRO DE VERNIZ E GOSTO DE GELO VAGABUNDO.
ANDRÉS NÃO TINHA FILHOS MAS QUERIA SER AMAMENTADO POR SUA MULHER. ELE OLHAVA OS PEITOS DELA, GRANDES E PONTIAGUDOS, E VIA, SEUS JATOS DE LEITE DOCES E SUAVES COM HÁLITO DE FEBRE. TINHA DIA DE CAUSAR ESCORIAÇÕES E DEIXAR E CONTAR SÓ NOS PEITOS UMAS TREZE MANCHAS ROXAS, E NAS PERNAS E NAS COSTAS MAIS UMAS QUARENTA E DUAS. A PRIMEIRA VEZ QUE SONHOU COM OS PEITOS DE SUA MULHER ACORDOU TRISTE, SEM SABOR DE PEITOS SEM A POSSIBILIDADE DE PEITOS, SEM LEITE. SÓ SE LEMBROU DA MELHOR PARTE DO SONHO AO ABRIR A PORTA DO CARRO NUM SÁBADO A TARDE PARA ENTRAR NUMA PIZZARIA. SUA MULHER ESTAVA AUSENTE OLHANDO ALGUNS PRÉDIOS QUE COMEÇAVAM A ACENDER AS LUZES E ELE SABIA, SE LEMBROU, DE QUE SEMPRE FALAVAM DISSO, COMO ERA BONITO UM ENTARDECER NA METRÓPOLE, QUANDO VOCÊ TEM TEMPO DE FICAR AUSENTE, PARADO, OLHANDO AS JANELINHAS SE ILUMINAREM, E IMAGINAR ALI, EM CADA CÔMODO UMA HISTÓRIA, UM ASSUNTO, UM OLHAR, UMA BRIGA.
OLHAVA A MULHER DESCER DO CARRO E LEMBROU DETALHE POR DETALHE DE TUDO. QUANDO DESARMOU AS AMARRAS ESTAVA DENTRO . DELA. NO GERÚNDIO. CONTE A HISTÓRIA E NÃO SE REPOUSE NUMA REVERBERAÇÃO DE CONCEITOS. A MULHER DE NOVO. COMERAM TRANSARAM E ELA DORMIU. ANDRÉS ESTAVA COM MEDO DE ACORDAR CANSADO. ENTÃO SUA MULHER ACORDOU E COMEÇOU A CHUPAR SEU PAU COM FOME, ELE OLHAVA O MOVIMENTO DA CABEÇA DELA INDO E VINDO E PENSAVA NUMA GIGANTESCA ESCADA DE ALGODÃO E ELE DESCENDO AQUILO DESCALÇO, ERA INFINITA E PERFEITA, UMA ESCADA SÓ DE DESCIDA ERA BOA MACIA APAZIGUANTE, QUANDO ABRIU OS OLHOS JÁ ESTAVA COMPLETAMENTE INTEGRADO A HARMONIA DO CORPO. DESSA VEZ ELE DESMAIOU, UM MAR REAL E EM FORMA DE GLOBO GIRAVA EM SUA FRENTE, AS EXTREMIDADES DO MAR ERAM ONDAS DE PAPEL CELOFANE BRILHANTE. VIA CARDUMES.
A MULHER DE ANDRÉS ACORDOU COM A VOZ DE SEU HOMEM DIZENDO FALA UM POUCO COMIGO, NÃO CONSIGO RECOBRAR OS SENTIDOS, ASSUSTOU E VIU SUOR EM SUA TESTA E UMA IMOBILIDADE DE MEMBROS, CONFUSA, COMEÇOU A BEIJAR E FALAR BAIXO EM SEU OUVIDO COISAS AVELUDADAS DE UMA TERNURA ÚMIDA, DE SORVETE DERRETENDO, UMA DUCHA EM COSTAS EXAUSTAS, NADAR NUMA PISCINA INFINITA E QUENTE, COM UMA CORRENTEZA LEVE, DESCENDO, E BOIAR SEM ESFORÇO, COMO SERIA NO MAR MORTO, COMO SERIA COM ELE, EM SEU COLO .
ANDRÉS FOI VOLTANDO E DISSE QUE ESTAVA NUM LUGAR ESCURO E TRISTE QUANDO SEM QUERER BEBEU UM COPO DE VENENO ESFUMAÇANTE E ESTAVA MORRENDO. MAS A MULHER NUNCA ESTEVE NUNCA OUVIU NUNCA SALVOU SUA BOCA PODRE DE SONHOS CONFUSOS. ANDRÉS SONHAVA, DORMIA, SONHAVA TANTO, CALADO, COM SEU HÁLITO PORCO, SEUS TRÍCEPS FLÁCIDOS, SUAS MÃOS INÚTEIS. MAS SONHAVA INTENSO, MUITAS LEMBRANÇAS E VEZ EM QUANDO ALGUM PROTÓTIPO DE VIDA ESPETACULAR QUE UM DIA SENTIU, QUE UM DIA MERECEU.
A CANCELA. CHEIRO DE MANGABA. JABUTICABA PODRE DEBAIXO DE ÁRVORE MISTURADA COM BARRO NUMA MASSA MARROM. LÍQUIDO ESQUISITO O DO MEU PAU. BRONCAS CARINHOSAS NA MULHER QUE SUMIU. FOCOS DESASTROSOS DE INDECISÃO, FOME, MEDO, JOGO. ENTÃO EU VIM MOSTRAR MEUS REMENDOS. ESTENDER ARAUTOS. ENSOPAR AS COSTELAS QUE A MULHER GANHOU DO CRIADOR DE BOVINOS. E FAZER O QUÊ NELA. REPOUSAR EM SEU INSALUBRE RECANTO. MODERAR MEU APETITE. INSTIGAR CISMAS. NÃO, ELA VAI APARECER , COMO SE PEGASSE O AVIÃO DE NOVO, NO MÊS DE MAIO, INDO, ACENANDO, CHORANDO, MAS DECIDIDA . ALGO DEMONSTRÁVEL ENTRE SUAS TRIPAS VAI ME DIZER NERVOSISMO DELA NO MOMENTO E EU VOU COMO UM MACHO CIENTE DISSO COMEMORAR O RUBRO EXATO DE SUA FACE COM MEU SUPOSTO AUTOCONTROLE INDISPOSTO. NAQUELA TARDE ENTEDIANTE DE DOMINGO AS COISAS JÁ NÃO ERAM MAIS AS MESMAS. MAS TODAS AS TARDES DE DOMINGO FAZEM A GENTE CRER QUE AS COISAS NÃO SÃO MAIS AS MESMAS.
NADA PARECIA NECESSÁRIO, NEM INDISPENSÁVEL, NEM CIGARRO, NEM COMIDA NEM SEXO NEM SONHO, NEM AMOR. TOMOU UM BANHO DEMORADO ENSABOANDO O CORPO DEVAGAR, ENTRISTECENDO COM UMA ESTRANHA DOR QUE SENTIA NOS OSSOS, SAIU DA BANHEIRA AMARELADA REPARANDO NOS FILHOTINHOS DA ARANHA QUE MORREU ONTEM DEBAIXO DE SEUS PÉS. TEVE VONTADE DE MATAR, MAS RESOLVEU ESPERAR QUE CRESCESSEM UM POUCO MAIS. ENXUGOU-SE RÁPIDO, ENTENDEU-SE POUCO, DEITOU SOBRE A COLCHA DE RETALHOS E VIU MAIS ARANHAS SUBINDO PELA PAREDE. SE PREPARAVA PARA ALGO QUE NÃO CHEGAVA. AGORA EU QUERO CALAR A BOCA E OUVIR SUA FALA. AGORA EU QUERO. MAS AGORA, O QUE EU TENHO É SÓ MEMÓRIA. E MEMÓRIA NÃO MATA FOME.
NÃO SABIA SE ERA ESCORBUTO OU AFLIÇÃO DOS PESADELOS REGULARES, MORDIA OS LÁBIOS E ACORDAVA SEMPRE COM A BOCA SANGRANDO, MEDO DE VOLTAR A DORMIR E COMEÇAR A DETERIORAR. FUMAVA, COMIA, OUVIA MÚSICA, E FICAVA CONCENTRADO PARA SENTIR MELHOR A BAMBEZA DOS DENTES E O CHEIRO DE AÇOUGUE DE SUA BOCA.
DEPOIS DE TRÊS DIAS NÃO DEU MAIS PARA AGÜENTAR OS OLHOS LACRIMEJANDO. DESMAIOU INSOSSO. VEIO O SONHO. ESTAVA ARRANCANDO PEDAÇOS DE COISAS DE SUA CASA, AS LASCAS DO PORTAL POR ONDE ELA VINHA SEMPRE, ARRANCANDO A ROUPA, CHEGANDO DA CIDADE, DO METRÔ, DA INFINITA SUBIDA DA RUA CONSOLAÇÃO, COM CHEIRO DE FUMAÇA DE ÔNIBUS, SALGADA DE SUOR, E UM ESTRANHO GOSTO DE PETRÓLEO. JUNTAVA OS PEDAÇOS DO ARMÁRIO ONDE TUDO, VEZ POR OUTRA, PARECIA ETERNO, ALGUNS PREGOS ONDE ELE TINHA FINCADO TUDO GRANDE TUDO TORTO TUDO ERRADO, E UM GRANDE ROBÔ TINHA VIDA, COM SEU ROSTO REDONDO, COMO O DELA, PEQUENA DEMAIS E SEM ELE. MESMO COM TUDO PONTIAGUDO E DISCREPANTE, O NARIZ FOI CONSTRUÍDO POR PEQUENOS PARAFUSOS ACHADOS POR AQUELES CANTOS, ONDE ELA DEIXOU TUDO TAMBÉM MUITO ERRADO, COM DESCONFIANÇA E SEM O RITMO DE UMA DESCULPA, DEPOIS DE TUDO ENTENDIDO ESQUISITO, LÁ, TUDO JOGADO, AFINAL NÃO TINHA NENHUMA PERSUASÃO OU VONTADE OU PRECISÃO DE NA PRESENÇA DELE, OU DE QUALQUER OUTRO BICHO VIVO CONTINUAR NADA, NEM QUE FOSSE COLAR UM PARAFUSO NA HIPÓFISE DE SEU NOVO PLANO METÁLICO DE ILUSÃO.
E ELE VIA, MESMO SEM ELA SEM OS OUTROS SEM O RESTO, ELE VIA, UMA OUTRA E MAIS NOVA E FORTE FANTASIA, SUAS ORELHAS ERAM TOMADAS VELHAS, UM GRANDE FIO SERVIA DE ELO ENTRE O CORAÇÃO FEITO COM GARRAFAS PLÁSTICAS LIGADAS A CABEÇA POR UM FEICHE DE LUZ , O CÉREBRO ERA APENAS UM VELHO TACHO DE COBRE VAZIO E OXIDADO.
ERA UM BICHO MEIO MONSTRUOSO NA FIGURA, MAS PARECIA INOFENSÍVEL TALVEZ POR NÃO INSPIRAR QUALQUER POSSIBILIDADE DE VEEMÊNCIA, EM FUNÇÃO DA POUCA MALEABILIDADE DE SEUS MEMBROS. OS DEDOS DAS MÃOS FORAM FABRICADOS COM AS PONTAS DOS GARFOS QUE ELA ENFIAVA EM SUA BOCA DEPOIS DE GUISAR, COM CAPRICHO, SEUS LEGUMES CAROS, SEUS TEMPEROS PERFUMADOS, E DEPOIS QUE ELE COMIA ELA PEDIA: SOPRA, GOSTAVA DO HÁLITO DELE COM O TEMPERO DELA, SE O HÁLITO ESTÁ ASSIM, IMAGINE O ESPERMA, DIZIA TUDO BAIXO, ENTRE DENTES E LÍNGUAS E CALCINHAS PEQUENAS E ÓLEOS E FLUXO DE SALIVAS E UM PERFUME DE AXILAS SUGADAS . TUDO DO ROBÔ TINHA UM TANTO DELA OU DELE MISTURADO, TUDO REVIRADO E EM CADA INSTRUMENTO MORAVA UMA GRANDE SAUDADE, UM GRANDE BLEFE, UM GRANDE ATALHO.
UM DOS PÉS ERAM LATAS DE ÓLEO QUE PROMOVIAM UM BARULHO DE CORRENTES SENDO ARRASTADAS POR HORIZONTES METÁLICOS, OU ELA ENGATINHANDO NUA COM SEUS INDECIFRÁVEIS PENDURICALHOS. OS DEDOS FORAM CONFECCIONADOS COM CONCHAS, GRANDES ESCUMADEIRAS E SACA-ROLHAS EM ORDEM DECRESCENTE DO PONTO DE VISTA DO MEIO, COMO REALMENTE SE POSICIONAM OS DEDOS, O MINDINHO ESQUERDO ERA UM ABRIDOR DE LATAS CARCOMIDO DE FERRUGEM, DE TANTO SER ESQUECIDO EM CIMA DA MESA MOLHADA, DIAS, NOITES E ENTREGAS.
A BASE DO OUTRO PÉ ERA FEITA DE UM MONTE DE GARRAFAS LINDAS DE VINHO BARATO, SORVIDO ENTRE SEGREDOS E CONFISSÕES, PROMOVIAM O RUÍDO DE UM VELHO CORCUNDA SUGANDO SEUS RESTOS NUM DEPÓSITO DE LIXO DO JARDIM EUROPA OU QUEM SABE O RUÍDO DELA, ENGATINHANDO DE NOVO, OFEGANTE, PROCURANDO UMA CAMISINHA.
OS DEDOS FORAM FEITOS DE UM VELHO JOGO DE CHAVES DE FENDA ALTERNADAS COM UM MARTELO E UM ALICATE. NA REALIDADE SÓ PARECIAM DEDOS PORQUE ESTAVAM NAS EXTREMIDADES DA CRIATURA. TUDO PODERIA SER APENAS UMA VITRINE DE MICROCHIPS RESGATADOS DE UM DEPÓSITO MUITO ESCURO, MUITO GASTO, NÃO FOSSE O FATO DAQUILO SE MOVER E PARECER AINDA, COM TODO ESSE ARSENAL, FACTÍVEL, INDEFESO E DESBOTADO.
ACORDOU LESO E EXAUSTO E POBRE E TRISTE E SÓ E FODIDO E CALADO E CARENTE E MUITO MAIS POBRE DO QUE O ESMIUÇADO, DE SEU LIXO POUCO, PORQUE AGORA TUDO QUE ERA DELE, ERA A TROCA, DE UMA VIDA COMPLETA E ERRADA, E ERA FOGO E ERA POUCO E TINHA UMA MULHER, QUE AMAVA, INTACTA. DE ALGUM LUGAR ELA VIRIA, ENCIUMADA OU FORTE OU FRACA OU TRISTE OU AMOLADA.
UMA SIMPLES AQUISIÇÃO DE MEMÓRIA INGRATA. ERA TUDO TÃO NÍTIDO, COMO UM MERGULHO, UM BEIJO, UM SUSTO.
FOI AMOLECENDO, FECHOU OS OLHOS E SAIU PARA COMPRAR JORNAL. AO CHEGAR EM CASA, DEU DE CARA COM A EMPREGADA DE MUITOS ANOS, CONHECIDA, MELHORADA, ESPIADA PELAS FRESTAS GOZANDO QUIETA E SEM MAIS NENHUMA ILUSÃO PELO TOQUE DE SEUS DEDOS COM CHEIRO DE DETERGENTE E VASO SANITÁRIO. ELA O OLHOU E DISSE: ESPERO QUE ESSE JORNAL VOCÊ LEIA, ENQUANTO UM MONTE DE FOLHAS DO MESMO JORNAL ESTAVAM ESPALHADAS PELO CHÃO, SEM UTILIDADE, SEM UM CÃO PARA DEITAR POR CIMA, SEM UM AÇOUGUEIRO PARA EMBRULHAR, QUEM SABE ALI, O PULMÃO DE UM BOM BOI CASTRADO BEM CEDO, ELA RIU, E ELE, NUNCA RIA, MAS FOI BREVE, E SE CERTIFICOU, SEM NENHUMA ESPÉCIE DE RANCOR OU SOMBRA DE ALEGRIA, DE QUE REALMENTE NÃO LIA.
AGORA INTIMIDADO POR TANTO PAPEL INÚTIL, ABRIU O JORNAL NOS QUADRINHOS, LEU A HISTÓRIA DE UMA MULHER OPULENTA E MUITO PEITUDA, DE CABELO CHANEL PRETO E UNHAS ROÍDAS, NOS DOIS PRIMEIROS QUADROS A FIGURA DELA NÃO APARECIA, APENAS UM TEXTO RESUMIA ESTA IMAGEM. LEMBROU-SE DAQUELA MULHER, ERA APENAS UMA VELHA AMIGA, ESQUECIDA EM SUA MEMÓRIA COMO TANTAS OUTRAS PESSOAS NÍTIDAS E IMPORTANTES, QUE AOS POUCOS, COM A AJUDA INERENTE DO TEMPO, FORAM PERDENDO TERRITÓRIO EM SUA VIDA. ASSUSTOU-SE E PENSOU EM CHECAR O NOME DO AUTOR DA HISTORINHA, MAS ESQUECEU DESTA IMPORTÂNCIA E SAIU PRA COMPRAR CIGARROS. A CABINE DA PADARIA ERA PRECÁRIA E AMARELADA, A ATENDENTE PARECIA UMA PROSTITUTA QUE ENCONTROU CERTA VEZ NUM AEROPORTO INDO PARA ZURIQUE. AGORA ELA JÁ NÃO TINHA A SOMBRA AZUL SOBRE OS OLHOS CAFUZOS NEM O BATOM PINK, ESTAVA SEM MAQUIAGEM E VESTIA APENAS UM JALECO BEGE. SEU ROSTO ESTAVA PÁLIDO, VIA GRANDES E SECAS REMELAS EM SEUS OLHOS E NOS CANTOS DA BOCA UMA ESPUMINHA BRANCA ENDURECIDA. NÃO HÁ NADA MAIS TRISTE DO QUE UMA PUTA SEM MAQUIAGEM E AINDA POR CIMA DE JALECO, E ALÉM DE TUDO, BEGE, MAS A ESPUMINHA PODIA SER SIM, ANOS DE ESPERMA MUMIFICADOS.
ANDRÉS PEDIU UM TAL CIGARRO, NÃO TEM, ELE OLHOU EMBEVECIDO AQUELA QUANTIDADE DE DOCES, CIGARROS, CAIXINHAS COLORIDAS, LEU TODAS AS MARCAS DE TUDO E DISSE : UM QUALQUER COISA. A MULHER VIROU-SE PARA PEGAR O CIGARRO E RESOLVEU TENTAR SINTONIZAR O VELHO RÁDIO PENDIDO NO ALTO DA ESTANTE. ANDRÉS EXAMINAVA UMA CIGARREIRA ANTIGA COM DESENHOS DE FLORES E GAROTOS BOCHECHUDOS E PENSAVA QUE SUA MULHER ACHARIA BONITO, A PUTA QUE IA PARA ZURIQUE ESTAVA NAS PONTAS DOS PÉS E AS BATATAS DE SUA PERNA ERAM BRANCAS E DURAS, ANDRÉS TAMBÉM ACHOU A MULHER PARECIDA COM A AMANTE DE UM CHURRASQUEIRO DE UMA CIDADE DO INTERIOR.
ELA CONTINUAVA DE COSTAS E OS BRAÇOS DE ANDRÉS AGORA PENDIAM MURCHOS DE CANSAÇO, A CHIADEIRA DO RÁDIO NÃO INCOMODAVA, OLHAVA UNS CARAMELOS MUITO PERTO DE SUAS MÃOS, JÁ QUE A MULHER NÃO SE VIRAVA, CATOU A CIGARREIRA AS BALAS UM OUTRO CIGARRO UNS PUROS CHICLETES FÓSFOROS E ANDOU LENTAMENTE PELA RUA SEM ASFALTO, DE REPENTE ACORDOU COM MUITA SEDE, FOI ATÉ A COZINHA.
E PENSOU, NÃO QUERO COMER HOJE, ENTÃO BEBEU TRÊS COPOS DE ÁGUA NATURAL SENTINDO SEU GOSTO MORNO MIXADO AO SANGUE E À DOR NOS DENTES, O SABOR DE ANTEONTEM NA LÍNGUA ÁSPERA INCOMODAVA, VOLTOU PARA O COLCHÃO COM UMA SAUDADE INCRÍVEL DE SUA MULHER DEITADA VIRADA PARA O CANTO, ENTÃO DORMIU E PASSOU A MÃO ENTRE SUAS PERNAS E BEIJOU SUA BOCA COM A SENSAÇÃO DE TER ESTADO LONGE DELA POR MUITO TEMPO, ERA ESTRANHO ESTAR TÃO CANSADO DE PENSAR EM TODOS OS DETALHES, BEIJOU SEU PESCOÇO SUAS TÊMPORAS E AGARROU-SE EM SUAS COSTAS PARA DESCANSAR, FECHOU OS OLHOS, ABRIU OS CARAMELOS E AO COLOCAR UM NA BOCA SENTIU UM ESCROTO GOSTO DE SABÃO BARATO. PENSOU EM BOLHAS DENTRO DO ESTÔMAGO, CUSPIU OS RESQUÍCIOS, MAS NÃO ADIANTOU, ACORDOU COM AQUELE GOSTO VENCIDO DE TERNURA AMARGA, NÃO DE BRUMA SAL MULATAS QUIOSQUES E MARESIA, MAS UMA NERVURA PLÁSTICA, DE COPOS DESCARTÁVEIS, MOCHILAS PESADAS, CIGARROS MOLHADOS, RUÍDO DE CORTAR ISOPOR, ESPERA NO METRÔ E SAUDADE. CANSAÇO. SINTÉTICO. COM CHEIRO DE VERNIZ E GOSTO DE GELO VAGABUNDO.
ANDRÉS NÃO TINHA FILHOS MAS QUERIA SER AMAMENTADO POR SUA MULHER. ELE OLHAVA OS PEITOS DELA, GRANDES E PONTIAGUDOS, E VIA, SEUS JATOS DE LEITE DOCES E SUAVES COM HÁLITO DE FEBRE. TINHA DIA DE CAUSAR ESCORIAÇÕES E DEIXAR E CONTAR SÓ NOS PEITOS UMAS TREZE MANCHAS ROXAS, E NAS PERNAS E NAS COSTAS MAIS UMAS QUARENTA E DUAS. A PRIMEIRA VEZ QUE SONHOU COM OS PEITOS DE SUA MULHER ACORDOU TRISTE, SEM SABOR DE PEITOS SEM A POSSIBILIDADE DE PEITOS, SEM LEITE. SÓ SE LEMBROU DA MELHOR PARTE DO SONHO AO ABRIR A PORTA DO CARRO NUM SÁBADO A TARDE PARA ENTRAR NUMA PIZZARIA. SUA MULHER ESTAVA AUSENTE OLHANDO ALGUNS PRÉDIOS QUE COMEÇAVAM A ACENDER AS LUZES E ELE SABIA, SE LEMBROU, DE QUE SEMPRE FALAVAM DISSO, COMO ERA BONITO UM ENTARDECER NA METRÓPOLE, QUANDO VOCÊ TEM TEMPO DE FICAR AUSENTE, PARADO, OLHANDO AS JANELINHAS SE ILUMINAREM, E IMAGINAR ALI, EM CADA CÔMODO UMA HISTÓRIA, UM ASSUNTO, UM OLHAR, UMA BRIGA.
OLHAVA A MULHER DESCER DO CARRO E LEMBROU DETALHE POR DETALHE DE TUDO. QUANDO DESARMOU AS AMARRAS ESTAVA DENTRO . DELA. NO GERÚNDIO. CONTE A HISTÓRIA E NÃO SE REPOUSE NUMA REVERBERAÇÃO DE CONCEITOS. A MULHER DE NOVO. COMERAM TRANSARAM E ELA DORMIU. ANDRÉS ESTAVA COM MEDO DE ACORDAR CANSADO. ENTÃO SUA MULHER ACORDOU E COMEÇOU A CHUPAR SEU PAU COM FOME, ELE OLHAVA O MOVIMENTO DA CABEÇA DELA INDO E VINDO E PENSAVA NUMA GIGANTESCA ESCADA DE ALGODÃO E ELE DESCENDO AQUILO DESCALÇO, ERA INFINITA E PERFEITA, UMA ESCADA SÓ DE DESCIDA ERA BOA MACIA APAZIGUANTE, QUANDO ABRIU OS OLHOS JÁ ESTAVA COMPLETAMENTE INTEGRADO A HARMONIA DO CORPO. DESSA VEZ ELE DESMAIOU, UM MAR REAL E EM FORMA DE GLOBO GIRAVA EM SUA FRENTE, AS EXTREMIDADES DO MAR ERAM ONDAS DE PAPEL CELOFANE BRILHANTE. VIA CARDUMES.
A MULHER DE ANDRÉS ACORDOU COM A VOZ DE SEU HOMEM DIZENDO FALA UM POUCO COMIGO, NÃO CONSIGO RECOBRAR OS SENTIDOS, ASSUSTOU E VIU SUOR EM SUA TESTA E UMA IMOBILIDADE DE MEMBROS, CONFUSA, COMEÇOU A BEIJAR E FALAR BAIXO EM SEU OUVIDO COISAS AVELUDADAS DE UMA TERNURA ÚMIDA, DE SORVETE DERRETENDO, UMA DUCHA EM COSTAS EXAUSTAS, NADAR NUMA PISCINA INFINITA E QUENTE, COM UMA CORRENTEZA LEVE, DESCENDO, E BOIAR SEM ESFORÇO, COMO SERIA NO MAR MORTO, COMO SERIA COM ELE, EM SEU COLO .
ANDRÉS FOI VOLTANDO E DISSE QUE ESTAVA NUM LUGAR ESCURO E TRISTE QUANDO SEM QUERER BEBEU UM COPO DE VENENO ESFUMAÇANTE E ESTAVA MORRENDO. MAS A MULHER NUNCA ESTEVE NUNCA OUVIU NUNCA SALVOU SUA BOCA PODRE DE SONHOS CONFUSOS. ANDRÉS SONHAVA, DORMIA, SONHAVA TANTO, CALADO, COM SEU HÁLITO PORCO, SEUS TRÍCEPS FLÁCIDOS, SUAS MÃOS INÚTEIS. MAS SONHAVA INTENSO, MUITAS LEMBRANÇAS E VEZ EM QUANDO ALGUM PROTÓTIPO DE VIDA ESPETACULAR QUE UM DIA SENTIU, QUE UM DIA MERECEU.
A CANCELA. CHEIRO DE MANGABA. JABUTICABA PODRE DEBAIXO DE ÁRVORE MISTURADA COM BARRO NUMA MASSA MARROM. LÍQUIDO ESQUISITO O DO MEU PAU. BRONCAS CARINHOSAS NA MULHER QUE SUMIU. FOCOS DESASTROSOS DE INDECISÃO, FOME, MEDO, JOGO. ENTÃO EU VIM MOSTRAR MEUS REMENDOS. ESTENDER ARAUTOS. ENSOPAR AS COSTELAS QUE A MULHER GANHOU DO CRIADOR DE BOVINOS. E FAZER O QUÊ NELA. REPOUSAR EM SEU INSALUBRE RECANTO. MODERAR MEU APETITE. INSTIGAR CISMAS. NÃO, ELA VAI APARECER , COMO SE PEGASSE O AVIÃO DE NOVO, NO MÊS DE MAIO, INDO, ACENANDO, CHORANDO, MAS DECIDIDA . ALGO DEMONSTRÁVEL ENTRE SUAS TRIPAS VAI ME DIZER NERVOSISMO DELA NO MOMENTO E EU VOU COMO UM MACHO CIENTE DISSO COMEMORAR O RUBRO EXATO DE SUA FACE COM MEU SUPOSTO AUTOCONTROLE INDISPOSTO. NAQUELA TARDE ENTEDIANTE DE DOMINGO AS COISAS JÁ NÃO ERAM MAIS AS MESMAS. MAS TODAS AS TARDES DE DOMINGO FAZEM A GENTE CRER QUE AS COISAS NÃO SÃO MAIS AS MESMAS.
NADA PARECIA NECESSÁRIO, NEM INDISPENSÁVEL, NEM CIGARRO, NEM COMIDA NEM SEXO NEM SONHO, NEM AMOR. TOMOU UM BANHO DEMORADO ENSABOANDO O CORPO DEVAGAR, ENTRISTECENDO COM UMA ESTRANHA DOR QUE SENTIA NOS OSSOS, SAIU DA BANHEIRA AMARELADA REPARANDO NOS FILHOTINHOS DA ARANHA QUE MORREU ONTEM DEBAIXO DE SEUS PÉS. TEVE VONTADE DE MATAR, MAS RESOLVEU ESPERAR QUE CRESCESSEM UM POUCO MAIS. ENXUGOU-SE RÁPIDO, ENTENDEU-SE POUCO, DEITOU SOBRE A COLCHA DE RETALHOS E VIU MAIS ARANHAS SUBINDO PELA PAREDE. SE PREPARAVA PARA ALGO QUE NÃO CHEGAVA. AGORA EU QUERO CALAR A BOCA E OUVIR SUA FALA. AGORA EU QUERO. MAS AGORA, O QUE EU TENHO É SÓ MEMÓRIA. E MEMÓRIA NÃO MATA FOME.
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